Katholikos

Catolicismo de maneira inclusiva

Página 136 de 167

01 de junho – Monsenhor André Sampaio

O HOJE É NOS DADO PARA NOS TORNARMOS PESSOAS MELHORES

“Feliz aquele que ao abrir os olhos pela manhã pode contemplar o despertar da vida e vê-la como se apresenta a nós, linda e deslumbrante com infinitas bênçãos salutares e renovadoras para nos banhar de coragem e perseverança em nosso dia a dia. Tudo na vida são escolhas e elas nos fazem ser quem somos, toda escolha tem uma consequência e nós responderemos por ela. Hoje agradeça pela oportunidade de continuar o aprendizado e o conhecimento, pois são essas as oportunidades que Deus nos dá para nos tornarmos melhores. Devemos perceber que hoje não somos mais como outrora porque amadurecemos e o hoje é nos dado para nos tornarmos pessoas melhores, por isso todos os dias são uma nova esperança para a modificação e a santificação de cada um de nós. Mãos a obra, temos muito ainda a conquistar porque a vida é um caminho de aprendizado e conhecimento. Desperte!”

Monsenhor André Sampaio

31 de maio – Monsenhor André Sampaio

FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO: A AMEAÇA À PAZ E OS DESAFIOS DO DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

“A palavra ‘fundamentalismo’ passou nos últimos anos a estar presente na mídia mundial quase sempre com uma conotação assustadora. E não é para menos. Os militantes fundamentalistas estiveram por detrás da maioria dos atos de violência cometidos nas mais variadas situações geográficas. Acostumamo-nos a identificá-lo, o fundamentalismo, aos religiosos do Oriente Médio, particularmente aos imãs islâmicos, aos chefes e chefetes espirituais de países daquela região que sempre aparecem com seus trajes tradicionais, encimados por turbantes, lançando ameaças ao mundo moderno e aos americanos em geral.

Na verdade o fundamentalismo é um movimento socio-religioso e político muito diversificado e bem mais extenso do que as fronteiras do Islã. Paradoxalmente é nos Estados Unidos de hoje que encontramos o maior contingente de fundamentalistas, só que cristãos. O que se segue abaixo é uma síntese deste poderoso movimento, onde procura-se identificar os tipos de fundamentalismo bem como seus objetivos.

Antes de tudo é necessário definir o que vem a ser fundamentalismo. Designa-se assim todo e qualquer movimento religioso, de qualquer que seja a religião, que tende a interpretar a realidade de hoje através dos olhos de antigos preceitos religiosos e que renega os valores da modernidade. Para o fundamentalista o fiel deve seguir à risca as páginas dos textos sagrados da sua religião. As Escrituras (sejam elas a Bíblia, o Talmude, o Corão, ou o Hadith dos hindús) foram traçadas por Deus, logo devem ser interpretadas como a Sua vontade. Naturalmente que os fundamentalistas não aceitam o criticismo, isto é, o movimento intelectual teológico moderno (pelo menos desde Spinoza para cá) que diz que elas, as palavras sagradas, devem ser interpretadas de acordo com a época e as circunstâncias em que foram escritas e que abrigam uma enorme distância da realidade atual.

Portanto, fundamentalismo é tomar as palavras sagradas e a doutrina religiosa em seus fundamentos, radicalmente, ‘retornar aos artigos fundamentais da fé’ sem nenhuma alteração, sem nenhuma concessão. O fundamentalista não dialoga, apenas impõe sua ‘verdade’.

Toda religião, enraizada na sociedade humana, separa o grupo humano que nela se reconhece daqueles que praticam outra fé. Estabelece um território em que se definem e reforçam as identidades individuais e coletivas. À medida que diferencia uma comunidade da outra, a religião pode gerar conflitos ou servir de justificativa para confrontos violentos entre uma comunidade e outra. Ainda que as religiões preguem a paz, em todas as religiões se encontram pessoas ou grupos de crentes que vivem sua fé cultivando atitudes fundamentalistas. O envolvimento das religiões em guerras justifica perguntar se estas são fatores de guerra ou fatores de paz e se o fundamentalismo é ou não intrínseco a toda profissão religiosa. A pergunta se abriga na mesma estrutura institucional das religiões.

A crença num Deus absoluto e a total dedicação a ele da pessoa religiosa acabam justificando o absolutismo da crença. A partir de uma determinada formulação dos conteúdos de uma religião, tida como imutável, assumem-se atitudes de defesa e de luta contra toda e qualquer tentativa de reformulação, contra e qualquer mudança de comportamentos não consagrados pela tradição. O próprio serviço da verdade pode levar os líderes religiosos a atitudes autoritárias e violentas com a finalidade de evitar o relativismo, o sincretismo, o indiferentismo.

A recusa de distinguir entre conteúdos e suas formulações, a identificação do sentimento de total adesão de fé ao absoluto de Deus e a acolhida da sua auto-revelacão levam muitos crentes a assumir posturas de rígida defesa de sua profissão religiosa e comportamentos intolerantes. Chegam a ponto de não admitir a possibilidade de outras identidades, negam o direito a pensamentos e a atitudes diferentes.

No interior da comunidade de fé, eles tendem a impor sua visão da tradição como a única ortodoxa, usando todos os meios, mas particularmente o poder religioso. Pode-se verificar nesses segmentos uma busca constante dos espaços de poder, uma infiltração nos postos-chave de condução das comunidades religiosas. Através da emanação de normas categóricas e invioláveis, com penas anexas para os transgressores, da formação de grupos de controle e de denúncia, instauram um verdadeiro clima de regime. Na sociedade sua presença é também caracterizada por formas de poder.

São defensores de atitudes moralistas muito rígidas, de valores ligados à cultura tradicional, quer religiosa como social. Usam publicamente costumes que ostentam sua identidade religiosa. Divulgam suas idéias de forma particularmente polêmica contra outros crentes ainda que pertençam ao mesmo credo religioso. Na política buscam entendimentos e cumplicidade com as forças conservadoras em troca da defesa e do apoio político e legal para a conservação de seu poder religioso.

Fundamentalismo e ameaça à paz parecem, cada vez mais, dois termos inseparáveis no mundo contemporâneo. Fundamentalismo e uma maneira equivocada de viver a fé também parecem companheiros inseparáveis de viagem. A expressão do escritor José Saramago em comentário ao ato terrorista de 11 de setembro de 2001, ‘o problema é Deus’, deve servir de alerta para todos os crentes. Uma coisa é a adesão total e incondicionada a Deus, outra coisa é usar a religião em benefício de pessoas ou de grupos de poder.

Movimentos pacifistas procuram alertar sobre os riscos de atitudes fundamentalistas e contribuir para a criação de culturas de paz. No mundo religioso afirma-se cada vez mais um pluralismo de fato e de direito. O ecumenismo e o diálogo inter-religioso são apontados como caminhos irreversíveis para a reconciliação e a paz religiosa.

A missão da Igreja é desafiada a rever os paradigmas construídos em época colonial e aprofundar não somente uma espiritualidade de diálogo, mas construir um paradigma novo de missão que seja ao mesmo tempo ecumênico, inter-religioso e inter-cultural.”

Monsenhor André Sampaio

Referências:

Declaração Nostra Aetate. Acesso em: 30 mai. 2023.

Decreto Unitatis Redintegratio. Acesso em: 30 mai. 2023.

JOÃO PAULO II. Encíclica Redemptoris Missio, São Paulo: Paulinas,1990.

PONTIFÍCIO CONSELHO PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO E CONGREGAÇÃO PARA A EVANGELIZAÇÃO DOS POVOS. Diálogo e anúncio, São Paulo: Paulinas, 1996.

TAMAYO, Juan José. Fundamentalismos y diálogo entre religiones. Madrid: Trotta,
2004.

O preço do pragmatismo: a controvérsia sobre as relações entre Brasil e Venezuela

“Não faz sentido isolar a Venezuela, se o Brasil negocia com Angola, Egito, Arábia Saudita e China. Mas negar que Maduro é um ditador, como fez Lula, é um pouco demais” (Eduardo Oinegue, 30/05/2023).

A controvérsia em torno da postura do presidente Lula em relação à Venezuela levanta questões interessantes sobre a política externa e os princípios éticos que devem orientá-la. O Brasil, assim como muitos outros países, estabelece relações comerciais e diplomáticas com nações que possuem diferentes sistemas políticos e ideologias. No entanto, é importante analisar os limites dessa abordagem pragmática.

É verdade que o Brasil negocia com países como Angola, Egito, Arábia Saudita e China, que possuem governos com características distintas e, em alguns casos, regimes autoritários. Essas relações comerciais podem trazer benefícios econômicos e estratégicos para o Brasil, promovendo o desenvolvimento e fortalecendo a posição do país no cenário global. No entanto, a mera existência dessas relações não justifica automaticamente ignorar violações de direitos humanos e princípios democráticos.

Quando se trata da Venezuela e do governo de Nicolás Maduro, é inegável que a situação é complexa. Maduro tem sido amplamente criticado por sua gestão autoritária, violações dos direitos humanos e pela crise política e econômica que assola o país. Negar esses problemas e tratar Maduro como um líder legítimo pode ser interpretado como um desrespeito às aspirações democráticas do povo venezuelano e aos princípios universais de liberdade e justiça.

A defesa do regime de Maduro por parte de um presidente de renome internacional pode ter repercussões significativas na região e enfraquecer os esforços para promover a democracia e o respeito aos direitos humanos na Venezuela.

Isso não significa que o Brasil deva abandonar completamente o diálogo com a Venezuela. Pelo contrário, a busca por soluções pacíficas e diplomáticas é essencial para promover a estabilidade e o bem-estar da população venezuelana. No entanto, é necessário manter uma postura crítica e vigilante em relação a regimes autoritários e violações de direitos humanos.

A diplomacia deve ser baseada em princípios sólidos, que incluam a defesa dos direitos humanos, a promoção da democracia e o respeito às liberdades individuais. Negociar com países que possuem diferentes sistemas políticos não significa validar ou ignorar abusos. É fundamental encontrar um equilíbrio entre os interesses econômicos e a defesa dos valores democráticos, buscando sempre o desenvolvimento sustentável e a justiça social.

Portanto, a controvérsia em torno da postura de Lula em relação à Venezuela nos convida a refletir sobre o papel da ética na política externa. Os líderes políticos devem estar cientes de que suas palavras e ações têm consequências, tanto a nível nacional quanto internacional. Ao tomar decisões relacionadas às relações internacionais, é essencial considerar os impactos sociais, políticos e éticos de tais decisões, buscando sempre promover valores universais de justiça, liberdade e respeito aos direitos humanos.

Mauro Nascimento

Referência:

LAFER, Celso. A Internacionalização dos Direitos Humanos: Constituição, Racismo e Relações Internacionais. 2. ed. São Paulo: Manole, 2005.

30 de maio – Santa Joana d’Arc, virgem

Santa Joana d’Arc, 1504

Joana D’Arc é representada sobre um cavalo, com uma enorme armadura de ferro, quase que esmagando a sua figura franzina ou então amarrada em uma coluna, enquanto as chamas e a fumaça a consomem. Há seiscentos anos, são estes seus dois ícones: uma guerreira vitoriosa e uma “bruxa” moribunda. Nestas duas imagens estão condensados seus 19 anos de vida: a menina, nascida em 6 de janeiro de 1412, em Domremy, nordeste da França, que ajuda sua família em casa e nos campos, mal conseguindo rezar, foi aquela que, aos 13 anos de idade, ouviu “vozes” do céu e se sentiu envolvida em um grande projeto.

De “louca” a “donzela”

“Livrar a França” e proclamar Carlos VII, rei da França: esta missão foi-lhe incumbida – disse Joana D’Arc, primeiro, aos pais e, depois, às autoridades – pelas vozes do Arcanjo Miguel, de Catarina de Alexandria e de Margarida de Antioquia… que ela ouviu claramente. Tais vozes foram, logo, criticadas como brincadeiras de uma analfabeta, de olhos esbugalhados.

Porém, quando aquela jovem, de 17 anos, que fugiu de casa, predisse, com exatidão, uma derrota da França contra os invasores britânicos, as suas “fantasias” adquiriram maior valor.

Ao ser examinada por alguns teólogos, que a interrogaram sobre a sua fé, Joana foi posta à frente de um exército, que marchou para Orléans e a circundou. Em apenas oito dias, aconteceu um prodígio, em termos militares: os ingleses foram, várias vezes, derrotados na batalha, onde a audácia da “donzela” foi incomparável. Orléans foi libertada e, em 17 de julho de 1429, atingiu o auge da sua glória: Carlos VII foi coroado em Reims e, ao seu lado, Joana d’Arc, com seu estandarte.

Os dois inimigos

No entanto, duas forças opostas e similares conspiram contra a donzela: de um lado, os ingleses, que não aceitavam ser derrotados por uma jovem; de outro, os próprios franceses, generais e clérigos, que não queriam ser suplantados pelo mesmo motivo.

Por isso, enquanto Joana D’Arc guiava a libertação de Compiègne, a ponte levadiça foi levantada, antes que ela pudesse se livrar. Assim a jovem foi capturada pelos borgonheses.

Era o dia 23 de maio de 1430. Após dois dias, a Universidade de Paris pediu aos membros da Inquisição que a jovem fosse julgada por feitiçaria. Carlos VII fez bem pouco para libertá-la e, no dia 21 de novembro, Joana D’Arc foi entregue aos ingleses.

A alma não queima

O processo começou em Rouen, em 9 de janeiro de 1431. Cerca de cinquenta homens, entre os mais cultos da França e da Inglaterra, julgaram a donzela. Bispos, advogados eclesiásticos, prelados de vários níveis fizeram-lhe uma interrogação pormenorizada sobre as acusações de imputação, idolatria, cisma e apostasia. A sua fé, suas roupas masculinas, as misteriosas “vozes” foram objeto de duras acusações e falsas reconstruções, às quais Joana, quase sem nenhuma instrução, respondeu com coragem e precisão. Perguntaram-lhe, entre outras coisas, se ela estava na graça de Deus e respondeu: “Se eu estiver, Deus me protegerá; se não estiver, que Deus me permita tê-la, pois prefiro morrer a não estar na graça de Deus”.

O julgamento de Joana D’Arc terminou no dia 24 de março: a heroína da França foi considerada uma herege e devia morrer. Assim, em 30 de maio de 1431, ela foi obrigada a subir na fogueira, preparada na praça do Vieux-Marché, em Rouen, onde morreu queimada viva, com os olhos fixos na grande cruz, que o frade Isembard de la Pierre havia trazido para ela.

A Igreja reabilitou, solenemente, Joana d’Arc, em 1456. Pio X a beatificou, em 1910 e, dez anos depois, Bento XV a canonizou.

Fonte: Vatican News. Acesso em: 29 mai. 2023.

« Posts anteriores Posts recentes »

© 2026 Katholikos

Por Mauro Nascimento