Katholikos

Catolicismo de maneira inclusiva

Página 135 de 167

02 de junho – Monsenhor André Sampaio

ANTES DE COMEÇAR UM NOVO CICLO, É PRECISO TERMINAR O ANTIGO

“Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. Encerrando ciclos, fechando portas e terminando capítulos. Não importa o nome que damos, mas o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram. Vire a página do livro da sua vida e siga em frente. O que permanecer parado no passado, iniciará um processo de sofrimento sem precedentes. Ninguém pode permanecer no passado, ou viajar para o futuro, sem estar no presente. O que passou não voltará, e o futuro só chegará no momento correto. A vida é composta de várias surpresas, onde às vezes perdemos e outras ganhamos. Lembre-se que antes de começar um novo ciclo, é preciso terminar o antigo. Diga sempre á você mesmo, que o passou, passou, sem mágoas ou ressentimentos.”

Monsenhor André Sampaio

02 de junho – Santos Marcelino e Pedro, mártires

Os santos de hoje foram mártires por causa do amor a Jesus e pertenceram ao clero romano no século IV, quando era grande perseguição contra a Igreja de Cristo por parte do Imperador Diocleciano. Esta página da história da Igreja foi-nos confirmada pelo próprio papa Dâmaso, que na época era um adolescente e testemunhou os acontecimentos. Foi assim que tudo passou.

Na Roma dos tempos terríveis e sangrentos do imperador Diocleciano, padre Marcelino era um dos sacerdotes mais respeitados entre o clero romano. Por meio dele e de Pedro, outro sacerdote, exorcista, muitas conversões ocorreram na capital do império. Como os dois se tornaram conhecidos por todos daquela comunidade, inclusive pelos pagãos, não demorou a serem denunciados como cristãos. Isso porque os mais visados eram os líderes da nova religião e os que se destacavam como exemplo entre a população. Intimados, Marcelino e Pedro foram presos para julgamento. No cárcere, conheceram Artêmio, o diretor da prisão.

Alguns dias depois notaram que Artêmio andava triste. Conversaram com ele e o miliciano contou que sua filha Paulinha estava à beira da morte, atacada por convulsões e contorções espantosas, motivadas por um mal misterioso que os médicos não descobriam a causa. Para os dois, aquilo indicava uma possessão demoníaca. Falaram sobre o cristianismo, Deus e o demônio e sobre a libertação dos males pela fé em Jesus Cristo. Mas Artêmino não lhes deu crédito. Até que naquela noite presenciou um milagre que mudou seu destino.

Segundo consta, um anjo libertou Pedro das correntes e ferros e o conduziu à casa de Artêmio. O miliciano, perplexo, apresentou-o à sua esposa, Cândida. Pedro, então, disse ao casal que a cura da filha Paulinha dependeria de suas sinceras conversões. Começou a pregar a Palavra de Cristo e pouco depois os dois se converteram. Paulinha se curou e se converteu também.

Dias depois, Artêmio libertou Marcelino e Pedro, provocando a ira de seus superiores. Os dois foram recapturados e condenados à decapitação. Entrementes, Artêmio, Cândida e Paulinha foram escondidos pelos cristãos, mas eles passaram a evangelizar publicamente, conseguindo muitas conversões. Assim, logo foram localizados e imediatamente executados. Artêmio morreu decapitado, enquanto Cândida e Paulinha foram colocadas vivas dentro de uma vala que foi sendo coberta por pedras até morrerem sufocadas.

Quanto aos santos, o prefeito de Roma ordenou que fossem também decapitados, porém fora da cidade, para que não houvesse comoção popular. Foram levados para um bosque isolado onde lhes cortaram as cabeças. Era o dia 2 de junho de 304.

Os seus corpos ficaram escondidos numa gruta límpida por muito tempo. Depois foram encontrados por uma rica e pia senhora, de nome Lucila, que desejava dar uma digna e cristã sepultura aos santos de sua devoção. O culto dedicado a eles se espalhou no mundo católico até que o imperador Constantino mandou construir sobre essas sepulturas uma igreja. Outros séculos se passaram e, em 1751, no lugar da igreja foi erguida a belíssima basílica de São Marcelino e São Pedro, para conservar a memória dos dois santos mártires, a qual existe até hoje.

Fonte: Franciscanos. Acesso em: 01 jun. 2023.

Curiosidades: o que é uma hagiografia?

Hagiografia é basicamente uma biografia de santo, especialmente no contexto cristão. É um tipo de escrita que conta a vida, as obras e os milagres desses santos, além de celebrar e venerar a sua figura.

As hagiografias são geralmente escritas de maneira positiva, destacando as virtudes, os feitos extraordinários e os exemplos de piedade dos santos. Elas podem incluir histórias de milagres atribuídos a eles, relatos sobre sua santidade e até mesmo detalhes sobre o seu martírio, se for o caso. O objetivo das hagiografias é inspirar e fortalecer a fé dos fiéis, fornecendo exemplos de como viver uma vida espiritual e moralmente correta.

É importante lembrar, porém, que as hagiografias não são necessariamente registros históricos precisos. Muitas vezes, elas contêm elementos lendários, mitológicos ou simbólicos. Elas refletem a devoção popular e a interpretação da figura do santo dentro de uma determinada comunidade religiosa.

Mauro Nascimento 

Referência:

CERTEAU, Michel de. A escrita da história. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

Agostinho de Hipona e a importância de unir ciência e caridade

Agostinho de Hipona, um dos mais importantes filósofos e teólogos cristãos, deixou-nos uma afirmação profunda e impactante: Junte a ciência à caridade, e a ciência será útil para você, não por si mesma, mas pela caridade (Cf. De libero arbitrio, II, 3, 8s.).

Essa frase traz à tona a necessidade de unir duas áreas que, muitas vezes, parecem caminhar em direções opostas: a ciência e a caridade. A ciência é frequentemente vista como uma disciplina objetiva, que busca entender e explicar o mundo de maneira racional e lógica, enquanto a caridade é vista como uma prática subjetiva, que busca aliviar o sofrimento humano e promover a justiça social.

No entanto, Agostinho deixa claro que essas duas áreas não são excludentes, mas sim complementares. Quando juntamos a ciência à caridade, a ciência se torna útil não por si mesma, mas pela caridade. Ou seja, a ciência passa a ter um propósito maior do que simplesmente buscar conhecimento por si só: ela se torna uma ferramenta para promover o bem-estar humano e a justiça social.

Mas como podemos juntar a ciência à caridade na prática? Uma maneira é por meio da pesquisa científica voltada para a solução de problemas sociais. Muitas vezes, a ciência pode contribuir de maneira significativa para encontrar soluções inovadoras e eficazes para problemas que afetam a vida das pessoas, como doenças, fome, pobreza, violência, entre outros.

Outra maneira é por meio do engajamento da comunidade científica em projetos sociais e atividades voluntárias. Os cientistas podem usar seu conhecimento e habilidades para ajudar organizações sem fins lucrativos, comunidades carentes e grupos vulneráveis. Essa prática também ajuda a aproximar a ciência das pessoas, tornando-a mais acessível e compreensível para aqueles que não têm formação na área.

Ao juntar a ciência à caridade, podemos contribuir para a construção de um mundo mais justo, equitativo e solidário. A ciência deixa de ser vista como um fim em si mesma e se torna uma ferramenta poderosa para transformar a realidade em que vivemos. E, mais importante, podemos colocar em prática os valores cristãos que Agostinho de Hipona defendeu ao longo de sua vida, como a solidariedade, o amor ao próximo e a busca pela justiça.

Mauro Nascimento

Referências:

AGOSTINHO, S. Diálogo sobre o Livre Arbítrio. Tradução e introdução Paula Oliveira e Silva. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001. (Série Universitária Clássicos de Filosofia).

Caritas in veritate. Acesso em: 01 jun. 2023.

01 de junho – São Justino, filósofo, mártir

Imagem: Wikimedia

São Justino,  filósofo e mártir, é o mais importante dos padres apologetas do século II. A palavra «apologeta» faz referência a esses antigos escritores cristãos que se propunham defender a nossa religião das graves acusações dos pagãos e dos judeus, e difundir a doutrina cristã de uma maneira adaptada à cultura de seu tempo. Deste modo, entre os apologetas se dá uma dupla inquietude: a propriamente apologética, defender o cristianismo nascente («apologia» em grego significa precisamente «defesa»); e a de proposição «missionária», que busca expor os conteúdos da fé em uma linguagem e com categorias de pensamento compreensíveis aos contemporâneos.

Justino havia nascido ao redor do ano 100, na antiga Siquém, em Samaria, na Terra Santa; buscou a verdade durante muito tempo, peregrinando pelas diferentes escolas da tradição filosófica grega. Por último, como ele mesmo conta nos primeiros capítulos de seu «Diálogo com Trifon», misterioso personagem, um ancião com o qual se havia encontrado na praia do mar, primeiro entrou em crise, ao demonstrar-lhe a incapacidade do homem para satisfazer unicamente com suas forças a aspiração ao divino. Depois lhe indicou nos antigos profetas as pessoas às quais tinha de dirigir-se para encontrar o caminho de Deus e a «verdadeira filosofia». Ao despedir-se, o ancião lhe exortou à oração para que lhe fossem abertas as portas da luz.

A narração simboliza o episódio crucial da vida de Justino: ao final de um longo caminho filosófico de busca da verdade, chegou à fé cristã. Fundou uma escola em Roma, onde iniciava gratuitamente os alunos na nova religião, considerada como a verdadeira filosofia. Nela, de fato, havia encontrado a verdade e, portanto, a arte de viver de maneira reta. Por este motivo, foi denunciado e foi decapitado por volta do ano 165, sob o reinado de Marco Aurélio, o imperador filósofo a quem Justino havia dirigido sua «Apologia».

As duas «Apologias» e o «Diálogo com o judeu Trifon» são as únicas obras que nos restam dele.  Em seu conjunto, a figura e a obra de Justino marcam a decidida opção da Igreja antiga pela filosofia, pela razão, ao invés da religião dos pagãos. Com a religião pagã, de fato, os primeiros cristãos rejeitaram acirradamente todo compromisso. Eles a consideravam como uma idolatria, até o ponto de correr o risco de ser acusados de «impiedade» e de «ateísmo». Em particular, Justino, especialmente em sua «Primeira Apologia», fez uma crítica implacável da religião pagã e de seus mitos, por considerá-los como «desorientações» diabólicas no caminho da verdade.

A filosofia representou, contudo, a área privilegiada do encontro entre paganismo, judaísmo e cristianismo, precisamente no âmbito da crítica à religião pagã e a seus falsos mitos. «Nossa filosofia…»: com estas palavras explícitas, chegou a definir a nova religião outro apologeta contemporâneo a Justino, o bispo Meliton de Sardes («História Eclesiástica», 4, 26, 7).

De fato, a religião pagã não seguia os caminhos do «Logos», mas se empenhava em seguir os do mito, apesar de que este era reconhecido pela filosofia grega como carente de consistência na verdade. Por este motivo, o ocaso da religião pagã era inevitável: era a lógica consequência do afastamento da religião da verdade do ser, reduzida a um conjunto artificial de cerimônias, convenções e costumes.

Justino, e com ele outros apologetas, firmaram a tomada de posição clara da fé cristã pelo Deus dos filósofos contra os falsos deuses da religião pagã. Era a opção pela verdade do ser contra o mito do costume. Algumas décadas depois de Justino, Tertuliano definiu a mesma opção dos cristãos com uma sentença lapidária que sempre é válida: «Dominus noster Christus veritatem se, non consuetudinem, cognominavit — Cristo afirmou que era a verdade, não o costume» («De virgin. Vel». 1,1).

Nesse sentido, deve-se levar em conta que o termo «consuetudo», que utiliza Tertuliano para fazer referência à religião pagã, pode ser traduzido nos idiomas modernos com as expressões «moda cultural», «moda do momento».

Em uma época como a nossa, caracterizada pelo relativismo no debate sobre os valores e sobre a religião — assim como no diálogo inter-religioso –, esta é uma lição que não se deve esquecer. Com este objetivo, e assim concluo, volto a apresentar-vos as últimas palavras do misterioso ancião, que se encontrou com o filósofo Justino na margem do mar: «Reza, antes de tudo, para que te sejam abertas as portas da luz, pois ninguém pode ver nem compreender, se Deus e seu Cristo não lhe concedem a compreensão» («Diálogo com Trifon» 7, 3).

Fonte: Franciscanos. Acesso em: 31 mai. 2023.

« Posts anteriores Posts recentes »

© 2026 Katholikos

Por Mauro Nascimento