Catolicismo de maneira inclusiva

Categoria: Santo do dia (Página 22 de 75)

29 de dezembro – São Tomás Becket, bispo de Cantuária, mártir

São Tomás Becket (© Biblioteca Apostolica Vaticana)

“Aceito a morte, em nome de Jesus e pela Igreja”. Tomás Becket pronunciou estas palavras pouco antes de morrer. Assim, cumpria-se uma parábola extraordinária do seu testemunho cristão. Aquele homem poderoso, acostumado a comandar, morreu como mártir e servo de Cristo, por não renegar à sua fé e por manter a liberdade da Igreja Católica.

Estadista

Tomás nasceu em Londres, em 1118, em uma família de origem da Normandia. Desde a juventude, foi encaminhado à carreira eclesiástica. Formou-se na Abadia de Merton e, a seguir, estudou na França e frequentou a universidade de Bolonha, distinguindo-se sempre pelas suas qualidades intelectuais.

Em 1154, foi arquidiácono na diocese de Cantuária; no ano seguinte, o novo Rei da Inglaterra, Henrique II, o nomeou Chanceler do seu reino. Tomás era o homem de maior confiança do monarca; vivia uma vida de bem-estar e não renunciava às insígnias e privilégios do poder. Não obstante, o nosso Santo nunca deixou de ser generoso com os pobres e demonstrou sua liberdade interior mesmo diante do soberano, do qual não só era conselheiro, mas também pessoa de confiança.

Ao serviço da Igreja

A reviravolta na vida de Tomás Becket deu-se em 1161, quando aceitou de se tornar Arcebispo de Cantuária. Tal nomeação foi fortemente recomendada por Henrique II, que jamais teria imaginado de encontrar um convicto adversário naquele que, uma vez, era seu colaborador mais íntimo. Desde então, Tomás passou a servir a um Senhor, bem maior que aquele soberano terreno. O contraste entre ambos ocorreu quando o rei quis limitar a liberdade e a independência da Igreja Católica na Inglaterra, por meio das chamadas Constituições de Clarendon. Tomás foi solicitado a sigilar aquela Carta, que delimitava as prerrogativas da Igreja, mas o novo Arcebispo de Cantuária demonstrou ser um baluarte invencível. A imposição do rei foi rejeitada com determinação: “Em nome de Deus onipotente, não colocarei meu sigilo”. Assim, o amigo de então se torna, aos olhos do rei, um inimigo obstinado.

Mártir da fé e da liberdade

Tomás experimentou os sofrimentos do exílio: foi hóspede em um mosteiro Cisterciense e, depois, encontrou refúgio na França, onde permaneceu seis anos distante da sua pátria.

Ao retornar a Cantuária, foi acolhido com alegria pelos fiéis, o que causou uma maior adversidade por parte da Coroa. Narra-se que, certo dia, Henrique II havia expresso o desejo de que alguém liquidasse aquele Bispo incômodo. Seu desejo foi levado a sério por quatro cavaleiros, que partiram de Londres rumo a Cantuária. Assim, Tomás Becket foi barbaramente assassinado a facadas no interior da sua Catedral. Era o dia 29 de dezembro de 1170. Narra-se ainda que, diante da pergunta dos seus assassinos “Onde está Tomás, o traidor?”, o arcebispo tenha respondido: “Estou aqui, mas não sou um traidor; sou apenas um bispo e sacerdote de Deus”.

A imensa comoção que este assassinato suscitou foi além dos confins da Grã-Bretanha, tanto que, apenas três anos depois, no dia 21 de fevereiro de 1173, o Papa Alexandre III sancionou o seu martírio, elevando-o à honra dos altares.

Fonte: Vatican News. Acesso em: 27 dez. 2023.

28 de dezembro – Santos inocentes, mártires

Santos Mártires inocentes, Evangelhos de Otto III

O evangelista Mateus narra que, quando Jesus nasceu em Belém, alguns Magos se apresentaram ao rei Herodes para lhe perguntar onde estava o Menino – o Rei dos Judeus – para adorá-lo.

Temendo perder o trono, Herodes quis saber mais informações, com a intenção de matá-lo. Então, após consultar os escribas, pediu aos Magos para procurá-lo e, na volta da sua viagem, dizer-lhe onde se encontrava.

Mas, diz o Evangelho, os Magos “avisados em sonhos para não voltar a ter com Herodes, tomaram outra estrada para regressar aos seus países”.

Ao perceber que os Magos o tinham enganado, Herodes, enfurecido, – diz ainda o Evangelho – “mandou matar todos os meninos de Belém e de todo o território, que tivessem menos de dois anos”.

A pequena vanguarda

A Igreja venera esses Inocentes como mártires, desde os primeiros séculos. Uma vez que perderam a vida, logo depois da vinda de Cristo ao mundo, recorda a sua memória próxima à celebração do Natal. Por desejo do Papa Pio V, tal celebração foi elevada a Festa litúrgica.

Prudêncio, poeta do século IV, definiu esses Inocentes, – no hino da Epifania do “Liber cathemerinòn” – como “flores martyrum”, flores dos mártires, “que se tornaram brotos viçosos, por causa do perseguidor de Jesus Cristo”.

O santo Bispo de Cartago, Dom Quodvultdeus, disse em um sermão: “Essas crianças, sem saber, morreram por Cristo, enquanto seus pais choravam pela perda de seus mártires. Assim, Cristo fez suas testemunhas aqueles que ainda não falavam”. E continua: “Ó dom maravilhoso da graça! Quais os merecimentos desses meninos, que se tornaram vencedores? Eles ainda nem falavam e já professavam a fé em Cristo! Eles não eram capazes de enfrentar uma luta, porque mal mexiam seus membros! No entanto, carregaram triunfantes a palma da vitória”!

Enfim, os Santos Inocentes são uma pequena parte do exército de mártires que deram e ainda continuam dando testemunho, com seu sangue, da sua pertença a Cristo; essas criaturas puras escreveram a primeira página da longa lista dos mártires cristãos.

Vítimas inocentes de ontem e de hoje

Para a tradição cristã ocidental, o episódio evangélico dos Santos Mártires Inocentes é um exemplo típico de como a sede de poder pode levar a crimes atrozes. De fato, os filhos de Belém foram vítimas do ódio impiedoso de Herodes com aqueles que poderiam ter impedido seus planos de poder e domínio.

Ao longo dos séculos, foram realizadas várias obras de arte com base neste tema e na história dos filhos de Belém. Em 2016, no dia dos Santos Mártires Inocentes, o Papa Francisco escreveu uma Carta aos Bispos exortando-os a “ouvir o grito e as lágrimas de tantas mães e tantas famílias pela morte dos seus filhos, filhos inocentes”, que representam “o grito de dor das mães, que choraram pela morte dos seus filhos inocentes, diante da tirania e da ânsia desenfreada de poder de Herodes”. “Um grito – escreveu o Pontífice – que ainda hoje continuamos a ouvir, que toca a nossa alma e que não podemos e não devemos ignorar ou calar”.

Com estas palavras, Francisco faz um premente apelo aos Bispos de todo o mundo para que defendam a inocência das crianças “dos novos Herodes do nosso tempo”, que a espezinham e dilaceram “com o peso do trabalho clandestino e escravo, com o peso da prostituição e da exploração; uma inocência exterminada por guerras e a emigração forçada”.

Além do mais, o Papa também recomenda ouvir o pranto e o grito da Igreja, que pede perdão e “chora, não apenas por causa da dor causada aos seus filhos mais pequeninos, mas também por reconhecer que até alguns dos seus membros cometem o mesmo pecado: sofrimento, história e dor de tantos menores, vítimas de abusos sexuais por parte de sacerdotes”.

Fonte: Vatican News. Acesso em: 22 dez. 2023.

27 de dezembro – São João, apóstolo e evangelista

Pal. lat. 50, Lorscher Evangeliar, sec. IX (© Biblioteca Apostolica Vaticana)

“O discípulo que Jesus amava”: assim João se autodefine, simplesmente, em seu Evangelho. Ele tinha razão em definir-se desta maneira, porque assumiu uma das funções mais importantes na história da salvação, além, naturalmente, de Maria, que Jesus lhe confiou, pessoalmente, quando estava agonizante na cruz: “eis o teu filho” e “eis a tua mãe”. Desde então, João levou Maria consigo e cuidou dela como “a pessoa mais querida”; o elo de união entre os dois era, precisamente, a pureza e a vida virginal, que ambos viveram.

Dados históricos

São várias as fontes históricas, que dão detalhes sobre a vida do evangelista e apóstolo. Algumas são apócrifas, como outro Evangelho, que, segundo alguém, devem ser atribuídas precisamente à sua pena. Sabemos que João era o mais novo entre os Doze e o que viveu mais que todos.

João era natural da Galileia, de uma região às margens do Lago de Tiberíades. Por isso, era de uma família de pescadores. Seu pai se chamava Zebedeu e sua mãe Salomé. Seu irmão, Tiago, chamado Maior, também foi apóstolo. Jesus sempre se referia a ele e estava no meio dos poucos, que O acompanham, nas ocasiões mais importantes: por exemplo, quando ressuscitou a filha de Jairo, na sua Transfiguração sobre o Monte Tabor e durante a sua agonia no Getsêmani. Durante a Última Ceia, João ocupou um lugar de honra, à direita do Senhor, em cujo ombro encostou a cabeça, como gesto de carinho.

Naquele momento, o Espírito Santo infundiu-lhe a sabedoria, com a qual pôde escrever o seu Evangelho na velhice. João foi o único que esteve aos pés da Cruz, além de Maria, com a qual passou os três dias antes da ressurreição; foi também o primeiro a chegar ao túmulo vazio, após o anúncio de Maria Madalena. Porém, deixou Pedro entrar por primeiro, por respeito e por ser mais velho. Desde então, transferiu-se com Maria para Éfeso, onde começou a sua pregação do Evangelho na Ásia Menor.

Parece que João sofreu pela perseguição de Domiciano e foi exilado para a ilha de Patmos. Depois, com a chegada de Nerva, retornou para Éfeso, onde terminou seus dias, com mais de cem anos, por volta do ano 104.

“A flor dos Evangelhos”

Assim foi chamado o Evangelho escrito por João, também denominado “Evangelho espiritual” ou “Evangelho do Logos”, graças à perfeição da sua linguagem teológica e à invenção do termo polissêmico “Logos”, para indicar Jesus, com diversos significados: “Palavra”, “diálogo” , “projeto”, “Verbo”.

Além disso, em seu Evangelho, a palavra “crer” é citada 98 vezes, porque somente assim se podia atingir o Coração de Jesus: acreditar na liberdade e aceitar a graça, como demonstra o discípulo amado de Jesus.

O Evangelho de São João é altamente mariano, não tanto pela enorme quantidade de referências à Virgem Maria, mas pela graça especial de ter conhecido seu Filho, mais do que qualquer outra pessoa, e por desvendar o mistério de Cristo. No entanto, Maria aparece apenas duas vezes na narração de João: nas Bodas de Caná e no Calvário.

A narrativa das Bodas de Caná é de particular importância: naquela ocasião, deu-se o primeiro encontro de Jesus com João. No entanto, a vocação de João – que, com André, já era discípulo de João Batista – ocorreu, provavelmente, em Betânia, às margens do rio Jordão. Ao ver Jesus chegar, Batista o saudou como “Cordeiro de Deus”. O evangelista João ficou tão impressionado com aquele encontro, a ponto de recordar até a hora em que ocorreu: a décima hora, ou seja, às 16 horas. Doravante, não pôde não seguir a Jesus.

Todavia, além do alto valor teológico, o Evangelho de João se diferenciou dos Sinópticos pela sua ênfase à humanidade de Cristo, que emerge pelos detalhes de algumas narrativas, como: “sentar-se cansado”, “derramar lágrimas por Lázaro” ou “sentir sede na Cruz”.

Apocalipse e Cartas de João

São João escreveu também três Cartas e o Apocalipse, o único Livro profético do Novo Testamento. As Escrituras se concluem com este Livro e, conforme o significado do seu próprio nome – “revelação” – indica a mensagem concreta de esperança, que traz consigo. Assim, de qualquer maneira, coloca um ponto final no diálogo entre Deus e o homem. Desde então, coube à Igreja falar e interpretar a ação de Deus no âmbito da História, até ao seu retorno definitivo à Terra, no fim dos tempos. Nesse sentido, o Apocalipse é também uma “profecia”.

Quanto às três Cartas ou Epístolas de São João, escritas, provavelmente, em Éfeso, são Cartas sobre o amor e a fé, que visam defender algumas Verdades espirituais fundamentais, contra o ataque das doutrinas gnósticas.

Eis o “prólogo” inimitável do Evangelho de João:

«No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. Este veio para testemunho, para que testificasse da luz, para que todos cressem por ele. Não era ele a luz, mas para que testificasse da luz. Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo. Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. João testificou dele, e clamou, dizendo: Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu. E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por graça. Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou» (João 1:1-18).

Fonte: Vatican News. Acesso em: 21 dez. 2023.

26 de dezembro – São Estevão, primeiro mártir

São Estêvão (© BAV, Barb. lat. 487, f. 102r)

A dolorida fronte debruçava,

Já mal ferido, o mártir para a terra:

Portas ao céu os olhos seus tornava,

Pedindo a Deus, naquela horrível guerra,

Que aos seus perseguidores perdoasse:

Riso piedoso os olhos lhe descerra. (Purgatório, XV)

Na Divina Comédia, Dante narra ter assistido a uma cena impressionante: a lapidação de um jovem que, moribundo, invoca o perdão para seus perseguidores. O poeta florentino ficou comovido pela mansidão de Estêvão, que, de fato, emerge com toda a sua força na narração dos Atos dos Apóstolos, onde encontramos este acontecimento. “Senhor, não lhes imputes este pecado”, grita Estêvão, ajoelhando-se um pouco antes de expirar.

O jovem Estêvão, cheio de Espírito Santo, foi um dos primeiros a seguir os Apóstolos. Supõe-se que ele era grego ou judeu, educado na cultura helênica. Mas, com certeza, era muito estimado na Comunidade de Jerusalém, tanto que seu nome aparece nos Atos como o primeiro, entre os sete, que foram eleitos para ajudar na missão dos Apóstolos. “Homem cheio de fé e de Espírito Santo”, fazia prodígios e milagres. Porém, alguns da Sinagoga incitaram o povo, os anciãos e os escribas, dizendo tê-lo ouvido pronunciar expressões blasfemas contra Moisés e contra Deus. Era o período do pós-Pentecostal.

Estêvão foi arrastado para diante do Sinédrio, onde falsas testemunhas o acusaram terem ouvido suas afirmações de que Jesus Nazareno teria destruído aquele lugar e alterado os costumes transmitidos por Moisés.

Lapidação e perdão

Estêvão pronunciou o discurso mais longo dos Atos dos Apóstolos, um discurso forte no qual repercorreu a história da salvação. Deus havia preparado a vinda do Justo, mas eles se opuseram ao Espírito Santo, da mesma forma como seus pais perseguiram os profetas. E Estêvão concluiu: “Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, que está em pé à mão direita de Deus”. Tais palavras lhe custaram caro. Mas eles gritaram em alta voz e, arremetendo-se contra ele, se puseram a apedrejá-lo. Entre os que aprovaram a sua morte estava Saulo, que, depois se tornou São Paulo, passando de feroz perseguidor dos cristãos a Apóstolo dos gentios. Aos seus pés, depositaram o manto de Estêvão. Enquanto era apedrejado, o jovem pedia a Jesus para acolher o seu espírito e perdoar seus assassinos.

Grande devoção pelo Protomártir

O lugar do martírio de Santo Estêvão, em Jerusalém, situa-se, segundo a Tradição, um pouco fora da Porta de Damasco, onde hoje surge a igreja de Saint-Étienne. No cristianismo, era muito forte a devoção por Santo Estêvão. As notícias sobre as suas relíquias remontam ao ano 400 d.C. A sua vida, sobretudo o seu martírio, repercutiu profundamente na arte. Quase sempre, ele é representado com a palma ou com pedras decorativas.

Fonte: Vatican News. Acesso em: 21 mai. 2024.

25 de dezembro – Natal de Nosso Senhor

Desde o início, os cristãos celebravam o que o Senhor Jesus fez pela salvação da humanidade: todos os domingos, na “Páscoa semanal” e a festa anual, no domingo após a primeira lua cheia de primavera, a Páscoa.No início do século IV, o calendário litúrgico começou a mudar, dando mais valor à experiência “histórica”​​de Jesus: na Sexta-feira Santa comemorava-se a morte de Jesus e também a Última Ceia… Neste prisma, temos o Natal, o nascimento de Jesus, sobre o qual, em 336, temos o primeiro testemunho, depois do qual, veio a festa do Natal oriental da Epifania, em 6 de janeiro. Esta data era associada à festa civil pagã do “Natal do Sol Invencível” (“Natale Solis Invicti”), que o imperador Aureliano havia introduzido, em 274, em homenagem à divindade siríaca do Sol de Emesa, celebrada, precisamente, no dia 25 de dezembro.

A Solenidade do Natal é a única festa, que podia ser celebrada com quatro Missas: véspera, noite, amanhecer e dia. Os textos desta solenidade são os mesmos para os três Anos Litúrgicos. Trata-se de uma escolha que visa aprofundar e valorizar, quase em câmara lenta, o Acontecimento que mudou o curso da história: Deus se fez homem!

Véspera: “Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão… Matã gerou Jacó. Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo” (Mt 1,1-25).

Noite: “Não temais, eis que vos anuncio uma Boa-Nova que será alegria para todo o povo: hoje, vos nasceu, na Cidade de Davi, um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura” (Lc 2,1-14).

Manhã: “Depois que os anjos os deixaram e voltaram para o céu, falaram os pastores uns com os outros: “Vamos até Belém e vejamos o que o Senhor nos manifestou”… Foram com grande pressa… Voltaram os pastores, glorificando e louvando a Deus” (Lc 1,15-20).

Dia de Natal: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus”… “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,1-18). A Luz veio ao mundo. Hoje, como há mais de dois mil anos, a Luz atravessa a obscuridade da noite e das trevas e nos ilumina. Esta Luz tem um rosto e um nome para nós: Jesus Cristo, que o profeta Isaías preanunciou: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz” (Missa da Noite de Natal, Is 9,1-6). Ele é a Luz do mundo que ilumina as trevas (Evangelho do Natal, Jo 1,9; 3,19); Ele é a Esperança que não decepciona (Rm 5,5); Jesus, raiz e estirpe de Davi (cf. 2Sam 7,8ss, promessa de Deus ao Rei Davi; IV domingo do Advento, Ap 22,16); Jesus é a estrela radiante da manhã (Ap 22,16).

Acontecimento

Eis o Natal: um Fato, um Acontecimento capaz de mudar o curso da história. “Deus se fez homem para nos tornar filhos de Deus” (Santo Irineu). Um acontecimento tão importante e tão decisivo que a liturgia quis que nos rejubilássemos dele, quase em câmara lenta, a ponto de permitir não apenas uma celebração, mas quatro Missas de Natal: às vésperas (por volta das 18h00); à Noite (geralmente entre às 21 e 24 horas, este ano por volta das 20 horas); de Manhã (mais ou menos entre às 7 e às 9 horas); e a do Dia de Natal (entre às 10 e às 18 horas, aproximadamente).Quatro Missas para experimentarmos toda a alegria deste acontecimento, que surpreendeu e transtornou os planos humanos. Eis a alegria do Natal: “Hoje, vos nasceu um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Evangelho da Noite, Lc 2,11). O Senhor Jesus veio em meio a nós para nos dizer “não temais”, para dissipar a indiferença uns dos outros, porque Deus, em Jesus seu Filho, se comprometeu com a humanidade, ferida pelo pecado, para nos salvar.

Detalhes históricos

O texto do Evangelho de Lucas, que ouvimos na Missa da Noite, é rico de detalhes cronológicos e históricos: “Naqueles tempos, apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra… foi feito antes que Quirino fosse governador da Síria…” (Lc 2, 1-2). Eram detalhes que podiam nos deixar indiferentes pela ansiedade de receber a notícia de que Jesus havia nascido; mas, não são detalhes secundários, porque indicam que o nascimento de Jesus não pertence aos “contos de fada”, mas era um fato plenamente inserido na história.

Árvore genealógica

Como o Evangelho da véspera é indicativo, porque insere Jesus em uma árvore genealógica, não exatamente perfeita, visto os personagens, Ele aceita entrar nesta história familiar, que, certamente, não é constelada de Santos. Na longa lista são citados os Patriarcas e, depois, os Reis, antes e depois do exílio da Babilônia. Alguns Reis eram fiéis, outros idólatras, imorais e assassinos. E o que dizer do Rei Davi, no qual se entrelaçam fidelidade a Deus, pecados e crimes (recordamos apenas o crime que ele confessou no Salmo 50, após ter matado Urias).A genealogia quer testemunhar e confirmar que Jesus é da “estirpe de David” (cf. Mt 1,6ss) e que a promessa que Deus fez a Davi, de construir-lhe “uma casa” (cf. 2Sm, IV domingo do Advento) encontrou sua plenitude em Jesus. A genealogia mostra que faz parte de uma história bem maior, que vale para o homem Jesus, que inaugura uma nova história. Atrás de cada nome, às vezes enigmático, há uma história, através da qual Deus tornou possível a realização de alguma coisa. Trata-se de uma página que revela: atrás de cada rosto, há uma eleição de Deus e uma sua promessa, “como era no princípio, agora e sempre”. Também nós somos “eleitos” pela graça de Deus: “Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi” (Jo 15,16). Não fomos escolhidos pelos nossos méritos, mas pela sua Misericórdia: “Amo-te com eterno amor” (Jr 31,3). Eis a nossa certeza: “O Senhor chamou-me desde o seio de minha mãe” (Is 49,1). Como no passado, hoje Jesus entra nesta história e nos convida a olhar para longe, a ler este tempo histórico e social particular, não com uma ladainha de derrota e lamentos, mas com aquela Luz, que vem de cima e ilumina tudo. Enfim, nem José e Maria viveram em um contexto fácil, no entanto…

Manjedoura

“Completaram-se os seus dias e ela deu à luz seu filho primogênito, envolvendo-o em faixas, e o depôs em uma manjedoura” (Missa da Noite, cf. Lc 2,7). Deus Pai, Todo-Poderoso, por meio de Maria, depôs um Menino, o Emanuel, Deus conosco, em uma manjedoura: um Menino que dá início (arché) a um novo Reino, a uma nova História de salvação: Reino de justiça e paz, de amor e verdade.“E o depôs em uma manjedoura”. O verbo, em grego, indica a posição de quem faz a refeição, quase deitado, como um soldado romano. Porém, o Menino Jesus foi deposto em um cocho de animais: um receptáculo de insetos, babas de animais, sujeira; um sinal de como seria toda a vida de Jesus: os Anjos cantam no céu, enquanto Herodes o perseguia; um dia, será aclamado pelo povo e, no outro, condenado pela mesma multidão; um dia, como rei, e no outro, pregado na cruz como malfeitor. Rejeição e glória serão os sinais que distinguirão este Menino.Há também outro detalhe que, geralmente, é proposto pelos ícones: o Menino é colocado no lugar onde os animais comiam. Este mesmo Menino, que precisava ser nutrido para crescer, é recordado, desde o início, como o “pão” que alimenta: “Fazei isto em memória de mim”.Este Menino, nesses detalhes, revela-se como era, mas, ao mesmo tempo, revela o caminho que devemos seguir em nossa vida boa. Em um tempo, em que o homem é escravo dos seus apetites superficiais, Jesus indica uma nova vida, capaz de pôr ordem seus tantos apetites desordenados, que só saciam a própria ilusão e ambição de querer “ser como Deus”, da sua autoafirmação e emancipação de Deus, consequências do pecado original: “A mulher, vendo que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e apropriado para adquirir sabedoria, tirou-o da árvore e, depois, o ofereceu também ao seu marido” (Gn 3,6). Da manjedoura, Jesus manda-nos um sinal para que nos alimentemos com o que conta, para que, de comedores compulsivos, aprendamos a ser “pão que se doa”. Recordemos que a primeira das tentações de Jesus no deserto se referia, precisamente, ao conceito de “alimento”: “Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães…” Jesus respondeu: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4, 3-4), indicando-nos assim o exemplo que devemos seguir.

Em faixas

Maria “envolveu” o Menino “em faixas”: apesar da precariedade do momento, Maria sabe se organizar. O seu exemplo nos leva a aprender a “nos organizar” para que o Menino, que pede para nascer em nosso coração e em nossa vida, encontre acolhimento, cuidado e proteção. Em outras palavras, podemos dizer que a memória do Natal de Nosso Senhor ilumina os nossos “natais cotidianos”, onde a fé, ou seja, a amizade com o Menino Jesus, precisa ser acolhida e mantida nas “faixas” das nossas atenções e cuidados, para não desfalecer.Através daquele “Menino”, envolto em faixas e deitado na manjedoura, somos convidados a observar a lógica com que Deus age, e, através dela, aprender a agir “como Deus”; somos convidados a inverter nossas lógicas e estratégias, que requerem mudança de mentalidade e perspectiva. O que conta não é a grandeza e a importância, mas a pequenez, aparentemente insignificante: da grandeza à pequenez, da força à debilidade, do poder ao dom, porque é assim que Deus age!Também nós, como cristãos, somos chamados a ser “sinais” discretos do poder do amor de Deus, humildes instrumentos do Reino do Senhor, cientes de que “a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (cf. 1Cor 1,25). O termo “sinal” não deve ser entendido como fraqueza ou conformidade, porque se “o sal perder o sabor, para nada mais serve, senão para ser lançado fora” (cf. Mt 5, 13). Nosso modo de ser cristãos deveria tornar-se aquele convite vivo e crível do grão de trigo que produz fruto; deve ser aquele “sinal” do Menino de Belém, Jesus, aqui e agora; deve ser um viver e um agir, capazes de demonstrar a alegria do “Natal”, por uma Vida vinda do Alto, capaz de “entregar-se” pelos outros por amor (Páscoa).

Os Pastores

A entrada de Deus na história dá-se por “portas secundárias” e métodos não convencionais, tanto que os Anjos levam o anúncio aos pastores e não aos sacerdotes do Templo. Os pastores eram pobres guardiões, pagos para cuidar das ovelhas; eram excluídos do povo por serem nômades e por frequentarem pessoas fora do povo, estrangeiras e, portanto, impuras segundo a lei. Por isso, foi primeiro a eles que os Anjos transmitiram o anúncio. Confia-lhes, por primeiro, a tarefa de adorar e ir anunciar: “Vamos a Belém e vejamos o que se realizou e o que o Senhor nos manifestou. Foram com grande pressa e viram Maria e José e o Menino deitado numa manjedoura… Os pastores voltaram glorificando e louvando a Deus…” (Lc 2, 15-20, Evangelho da Missa da Manhã).Naqueles pastores nômades, que, como Jesus, não sabiam “onde repousar a cabeça” (Mt 8,20), vemos os nômades guardiões do nosso coração, aquela nossa parte inquieta que vigia, busca e espera Alguém, mas que, muitas vezes, se confunde, enganando a verdadeira fome e sede do coração. No fundo, cada um de nós é aquele pastor que tenta seguir seus pobres ideais e, quando pensa ter conseguido, percebe que o caminho ainda é muito longo.

Natal

O Natal de nosso Senhor Jesus recorda-nos que Deus está presente em todas as situações, nas quais pensamos que ele está ausente ou nas quais achamos que ele não pode estar. A nossa fé estimula-nos a viver o tempo natalino com maior serenidade e esperança: Deus está aqui, tão presente que, talvez ou com certeza, nos convida a rever nossos costumes; convida-nos a lembrar que, assim como Ele veio para nos salvar, também nós, através dele, só podemos nos salvar se caminharmos juntos, se aprendermos a cuidar uns dos outros; somos convidados a ser uma “manjedoura”, onde os outros possam se alimentar do pão da amizade, do amor, da misericórdia, da esperança. O Senhor oferece-se a nós para que possamos dar seu testemunho com a nossa vida. Como cristãos, somos convidados a assumir a esperança desta humanidade desnorteada e solitária, a sermos sentinelas da nova manhã… para que as trevas deste tempo sejam rompidas pela Luz, que vem do Senhor Jesus.

Jesus, nossa realidade decisiva

Jesus é a realidade decisiva da minha e da nossa existência. No Senhor Jesus, que se fez um de nós, aprendemos a ser todos irmãos, partilhando nossa solidariedade e a proximidade interior, que é o dom mais precioso, e louvando junto com os Anjos: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens amados pelo Senhor”.

Fonte: Vatican News. Acesso em: 20 dez. 2023.

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Por Mauro Nascimento