Catolicismo de maneira inclusiva

Autor: Katholikos (Página 136 de 168)

01 de junho – São Justino, filósofo, mártir

Imagem: Wikimedia

São Justino,  filósofo e mártir, é o mais importante dos padres apologetas do século II. A palavra «apologeta» faz referência a esses antigos escritores cristãos que se propunham defender a nossa religião das graves acusações dos pagãos e dos judeus, e difundir a doutrina cristã de uma maneira adaptada à cultura de seu tempo. Deste modo, entre os apologetas se dá uma dupla inquietude: a propriamente apologética, defender o cristianismo nascente («apologia» em grego significa precisamente «defesa»); e a de proposição «missionária», que busca expor os conteúdos da fé em uma linguagem e com categorias de pensamento compreensíveis aos contemporâneos.

Justino havia nascido ao redor do ano 100, na antiga Siquém, em Samaria, na Terra Santa; buscou a verdade durante muito tempo, peregrinando pelas diferentes escolas da tradição filosófica grega. Por último, como ele mesmo conta nos primeiros capítulos de seu «Diálogo com Trifon», misterioso personagem, um ancião com o qual se havia encontrado na praia do mar, primeiro entrou em crise, ao demonstrar-lhe a incapacidade do homem para satisfazer unicamente com suas forças a aspiração ao divino. Depois lhe indicou nos antigos profetas as pessoas às quais tinha de dirigir-se para encontrar o caminho de Deus e a «verdadeira filosofia». Ao despedir-se, o ancião lhe exortou à oração para que lhe fossem abertas as portas da luz.

A narração simboliza o episódio crucial da vida de Justino: ao final de um longo caminho filosófico de busca da verdade, chegou à fé cristã. Fundou uma escola em Roma, onde iniciava gratuitamente os alunos na nova religião, considerada como a verdadeira filosofia. Nela, de fato, havia encontrado a verdade e, portanto, a arte de viver de maneira reta. Por este motivo, foi denunciado e foi decapitado por volta do ano 165, sob o reinado de Marco Aurélio, o imperador filósofo a quem Justino havia dirigido sua «Apologia».

As duas «Apologias» e o «Diálogo com o judeu Trifon» são as únicas obras que nos restam dele.  Em seu conjunto, a figura e a obra de Justino marcam a decidida opção da Igreja antiga pela filosofia, pela razão, ao invés da religião dos pagãos. Com a religião pagã, de fato, os primeiros cristãos rejeitaram acirradamente todo compromisso. Eles a consideravam como uma idolatria, até o ponto de correr o risco de ser acusados de «impiedade» e de «ateísmo». Em particular, Justino, especialmente em sua «Primeira Apologia», fez uma crítica implacável da religião pagã e de seus mitos, por considerá-los como «desorientações» diabólicas no caminho da verdade.

A filosofia representou, contudo, a área privilegiada do encontro entre paganismo, judaísmo e cristianismo, precisamente no âmbito da crítica à religião pagã e a seus falsos mitos. «Nossa filosofia…»: com estas palavras explícitas, chegou a definir a nova religião outro apologeta contemporâneo a Justino, o bispo Meliton de Sardes («História Eclesiástica», 4, 26, 7).

De fato, a religião pagã não seguia os caminhos do «Logos», mas se empenhava em seguir os do mito, apesar de que este era reconhecido pela filosofia grega como carente de consistência na verdade. Por este motivo, o ocaso da religião pagã era inevitável: era a lógica consequência do afastamento da religião da verdade do ser, reduzida a um conjunto artificial de cerimônias, convenções e costumes.

Justino, e com ele outros apologetas, firmaram a tomada de posição clara da fé cristã pelo Deus dos filósofos contra os falsos deuses da religião pagã. Era a opção pela verdade do ser contra o mito do costume. Algumas décadas depois de Justino, Tertuliano definiu a mesma opção dos cristãos com uma sentença lapidária que sempre é válida: «Dominus noster Christus veritatem se, non consuetudinem, cognominavit — Cristo afirmou que era a verdade, não o costume» («De virgin. Vel». 1,1).

Nesse sentido, deve-se levar em conta que o termo «consuetudo», que utiliza Tertuliano para fazer referência à religião pagã, pode ser traduzido nos idiomas modernos com as expressões «moda cultural», «moda do momento».

Em uma época como a nossa, caracterizada pelo relativismo no debate sobre os valores e sobre a religião — assim como no diálogo inter-religioso –, esta é uma lição que não se deve esquecer. Com este objetivo, e assim concluo, volto a apresentar-vos as últimas palavras do misterioso ancião, que se encontrou com o filósofo Justino na margem do mar: «Reza, antes de tudo, para que te sejam abertas as portas da luz, pois ninguém pode ver nem compreender, se Deus e seu Cristo não lhe concedem a compreensão» («Diálogo com Trifon» 7, 3).

Fonte: Franciscanos. Acesso em: 31 mai. 2023.

01 de junho – Monsenhor André Sampaio

O HOJE É NOS DADO PARA NOS TORNARMOS PESSOAS MELHORES

“Feliz aquele que ao abrir os olhos pela manhã pode contemplar o despertar da vida e vê-la como se apresenta a nós, linda e deslumbrante com infinitas bênçãos salutares e renovadoras para nos banhar de coragem e perseverança em nosso dia a dia. Tudo na vida são escolhas e elas nos fazem ser quem somos, toda escolha tem uma consequência e nós responderemos por ela. Hoje agradeça pela oportunidade de continuar o aprendizado e o conhecimento, pois são essas as oportunidades que Deus nos dá para nos tornarmos melhores. Devemos perceber que hoje não somos mais como outrora porque amadurecemos e o hoje é nos dado para nos tornarmos pessoas melhores, por isso todos os dias são uma nova esperança para a modificação e a santificação de cada um de nós. Mãos a obra, temos muito ainda a conquistar porque a vida é um caminho de aprendizado e conhecimento. Desperte!”

Monsenhor André Sampaio

31 de maio – Monsenhor André Sampaio

FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO: A AMEAÇA À PAZ E OS DESAFIOS DO DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

“A palavra ‘fundamentalismo’ passou nos últimos anos a estar presente na mídia mundial quase sempre com uma conotação assustadora. E não é para menos. Os militantes fundamentalistas estiveram por detrás da maioria dos atos de violência cometidos nas mais variadas situações geográficas. Acostumamo-nos a identificá-lo, o fundamentalismo, aos religiosos do Oriente Médio, particularmente aos imãs islâmicos, aos chefes e chefetes espirituais de países daquela região que sempre aparecem com seus trajes tradicionais, encimados por turbantes, lançando ameaças ao mundo moderno e aos americanos em geral.

Na verdade o fundamentalismo é um movimento socio-religioso e político muito diversificado e bem mais extenso do que as fronteiras do Islã. Paradoxalmente é nos Estados Unidos de hoje que encontramos o maior contingente de fundamentalistas, só que cristãos. O que se segue abaixo é uma síntese deste poderoso movimento, onde procura-se identificar os tipos de fundamentalismo bem como seus objetivos.

Antes de tudo é necessário definir o que vem a ser fundamentalismo. Designa-se assim todo e qualquer movimento religioso, de qualquer que seja a religião, que tende a interpretar a realidade de hoje através dos olhos de antigos preceitos religiosos e que renega os valores da modernidade. Para o fundamentalista o fiel deve seguir à risca as páginas dos textos sagrados da sua religião. As Escrituras (sejam elas a Bíblia, o Talmude, o Corão, ou o Hadith dos hindús) foram traçadas por Deus, logo devem ser interpretadas como a Sua vontade. Naturalmente que os fundamentalistas não aceitam o criticismo, isto é, o movimento intelectual teológico moderno (pelo menos desde Spinoza para cá) que diz que elas, as palavras sagradas, devem ser interpretadas de acordo com a época e as circunstâncias em que foram escritas e que abrigam uma enorme distância da realidade atual.

Portanto, fundamentalismo é tomar as palavras sagradas e a doutrina religiosa em seus fundamentos, radicalmente, ‘retornar aos artigos fundamentais da fé’ sem nenhuma alteração, sem nenhuma concessão. O fundamentalista não dialoga, apenas impõe sua ‘verdade’.

Toda religião, enraizada na sociedade humana, separa o grupo humano que nela se reconhece daqueles que praticam outra fé. Estabelece um território em que se definem e reforçam as identidades individuais e coletivas. À medida que diferencia uma comunidade da outra, a religião pode gerar conflitos ou servir de justificativa para confrontos violentos entre uma comunidade e outra. Ainda que as religiões preguem a paz, em todas as religiões se encontram pessoas ou grupos de crentes que vivem sua fé cultivando atitudes fundamentalistas. O envolvimento das religiões em guerras justifica perguntar se estas são fatores de guerra ou fatores de paz e se o fundamentalismo é ou não intrínseco a toda profissão religiosa. A pergunta se abriga na mesma estrutura institucional das religiões.

A crença num Deus absoluto e a total dedicação a ele da pessoa religiosa acabam justificando o absolutismo da crença. A partir de uma determinada formulação dos conteúdos de uma religião, tida como imutável, assumem-se atitudes de defesa e de luta contra toda e qualquer tentativa de reformulação, contra e qualquer mudança de comportamentos não consagrados pela tradição. O próprio serviço da verdade pode levar os líderes religiosos a atitudes autoritárias e violentas com a finalidade de evitar o relativismo, o sincretismo, o indiferentismo.

A recusa de distinguir entre conteúdos e suas formulações, a identificação do sentimento de total adesão de fé ao absoluto de Deus e a acolhida da sua auto-revelacão levam muitos crentes a assumir posturas de rígida defesa de sua profissão religiosa e comportamentos intolerantes. Chegam a ponto de não admitir a possibilidade de outras identidades, negam o direito a pensamentos e a atitudes diferentes.

No interior da comunidade de fé, eles tendem a impor sua visão da tradição como a única ortodoxa, usando todos os meios, mas particularmente o poder religioso. Pode-se verificar nesses segmentos uma busca constante dos espaços de poder, uma infiltração nos postos-chave de condução das comunidades religiosas. Através da emanação de normas categóricas e invioláveis, com penas anexas para os transgressores, da formação de grupos de controle e de denúncia, instauram um verdadeiro clima de regime. Na sociedade sua presença é também caracterizada por formas de poder.

São defensores de atitudes moralistas muito rígidas, de valores ligados à cultura tradicional, quer religiosa como social. Usam publicamente costumes que ostentam sua identidade religiosa. Divulgam suas idéias de forma particularmente polêmica contra outros crentes ainda que pertençam ao mesmo credo religioso. Na política buscam entendimentos e cumplicidade com as forças conservadoras em troca da defesa e do apoio político e legal para a conservação de seu poder religioso.

Fundamentalismo e ameaça à paz parecem, cada vez mais, dois termos inseparáveis no mundo contemporâneo. Fundamentalismo e uma maneira equivocada de viver a fé também parecem companheiros inseparáveis de viagem. A expressão do escritor José Saramago em comentário ao ato terrorista de 11 de setembro de 2001, ‘o problema é Deus’, deve servir de alerta para todos os crentes. Uma coisa é a adesão total e incondicionada a Deus, outra coisa é usar a religião em benefício de pessoas ou de grupos de poder.

Movimentos pacifistas procuram alertar sobre os riscos de atitudes fundamentalistas e contribuir para a criação de culturas de paz. No mundo religioso afirma-se cada vez mais um pluralismo de fato e de direito. O ecumenismo e o diálogo inter-religioso são apontados como caminhos irreversíveis para a reconciliação e a paz religiosa.

A missão da Igreja é desafiada a rever os paradigmas construídos em época colonial e aprofundar não somente uma espiritualidade de diálogo, mas construir um paradigma novo de missão que seja ao mesmo tempo ecumênico, inter-religioso e inter-cultural.”

Monsenhor André Sampaio

Referências:

Declaração Nostra Aetate. Acesso em: 30 mai. 2023.

Decreto Unitatis Redintegratio. Acesso em: 30 mai. 2023.

JOÃO PAULO II. Encíclica Redemptoris Missio, São Paulo: Paulinas,1990.

PONTIFÍCIO CONSELHO PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO E CONGREGAÇÃO PARA A EVANGELIZAÇÃO DOS POVOS. Diálogo e anúncio, São Paulo: Paulinas, 1996.

TAMAYO, Juan José. Fundamentalismos y diálogo entre religiones. Madrid: Trotta,
2004.

O preço do pragmatismo: a controvérsia sobre as relações entre Brasil e Venezuela

“Não faz sentido isolar a Venezuela, se o Brasil negocia com Angola, Egito, Arábia Saudita e China. Mas negar que Maduro é um ditador, como fez Lula, é um pouco demais” (Eduardo Oinegue, 30/05/2023).

A controvérsia em torno da postura do presidente Lula em relação à Venezuela levanta questões interessantes sobre a política externa e os princípios éticos que devem orientá-la. O Brasil, assim como muitos outros países, estabelece relações comerciais e diplomáticas com nações que possuem diferentes sistemas políticos e ideologias. No entanto, é importante analisar os limites dessa abordagem pragmática.

É verdade que o Brasil negocia com países como Angola, Egito, Arábia Saudita e China, que possuem governos com características distintas e, em alguns casos, regimes autoritários. Essas relações comerciais podem trazer benefícios econômicos e estratégicos para o Brasil, promovendo o desenvolvimento e fortalecendo a posição do país no cenário global. No entanto, a mera existência dessas relações não justifica automaticamente ignorar violações de direitos humanos e princípios democráticos.

Quando se trata da Venezuela e do governo de Nicolás Maduro, é inegável que a situação é complexa. Maduro tem sido amplamente criticado por sua gestão autoritária, violações dos direitos humanos e pela crise política e econômica que assola o país. Negar esses problemas e tratar Maduro como um líder legítimo pode ser interpretado como um desrespeito às aspirações democráticas do povo venezuelano e aos princípios universais de liberdade e justiça.

A defesa do regime de Maduro por parte de um presidente de renome internacional pode ter repercussões significativas na região e enfraquecer os esforços para promover a democracia e o respeito aos direitos humanos na Venezuela.

Isso não significa que o Brasil deva abandonar completamente o diálogo com a Venezuela. Pelo contrário, a busca por soluções pacíficas e diplomáticas é essencial para promover a estabilidade e o bem-estar da população venezuelana. No entanto, é necessário manter uma postura crítica e vigilante em relação a regimes autoritários e violações de direitos humanos.

A diplomacia deve ser baseada em princípios sólidos, que incluam a defesa dos direitos humanos, a promoção da democracia e o respeito às liberdades individuais. Negociar com países que possuem diferentes sistemas políticos não significa validar ou ignorar abusos. É fundamental encontrar um equilíbrio entre os interesses econômicos e a defesa dos valores democráticos, buscando sempre o desenvolvimento sustentável e a justiça social.

Portanto, a controvérsia em torno da postura de Lula em relação à Venezuela nos convida a refletir sobre o papel da ética na política externa. Os líderes políticos devem estar cientes de que suas palavras e ações têm consequências, tanto a nível nacional quanto internacional. Ao tomar decisões relacionadas às relações internacionais, é essencial considerar os impactos sociais, políticos e éticos de tais decisões, buscando sempre promover valores universais de justiça, liberdade e respeito aos direitos humanos.

Mauro Nascimento

Referência:

LAFER, Celso. A Internacionalização dos Direitos Humanos: Constituição, Racismo e Relações Internacionais. 2. ed. São Paulo: Manole, 2005.

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Por Mauro Nascimento